Home / Da Redação / In Memoriam: Patrick Stewart (1940–2026)

In Memoriam: Patrick Stewart (1940–2026)

In Memoriam Sir Patrick Stewart 1940 - 2026

Em maio de 2014, o ator Patrick Stewart esteve em São Paulo, ao lado de seu colega James McAvoy, para divulgar o filme X-Men: Dias de um Futuro Esquecido. A coletiva, organizada pela 20th Century Fox Film do Brasil, reuniu dezenas de jornalistas no Grand Hyatt Hotel.

Foram feitas várias perguntas sobre o filme, mas, em uma das respostas, Sir Patrick Stewart mencionou que já havia estado em São Paulo nos anos 1960. Como os jornalistas brasileiros costumam ficar deslumbrados com celebridades, ninguém o questionou sobre esse detalhe.

Patrick Stewart e James MCavoy na coletiva de X-Men Dias de um Futuro Esquecido 2014
Patrick Stewart e James MCavoy na coletiva de X-Men Dias de um Futuro Esquecido 2014

Sir Patrick havia visitado a cidade em 1962, aos 21 anos, como integrante da companhia teatral Old Vic, associada à atriz Vivien Leigh. O grupo apresentou no Teatro Municipal de São Paulo A Dama das Camélias, uma seleção de cenas de Shakespeare e o clássico Noite de Reis. Durante a coletiva, Stewart lembrou com nostalgia daquela passagem por uma cidade que havia crescido tanto desde então.

Memórias como essa merecem ser preservadas neste texto, dedicado a homenagear o grande ator britânico, que morreu na quarta-feira, aos 86 anos, em Los Angeles, onde vivia. Sir Patrick Stewart deixa um legado de personagens importantes no teatro, no cinema e na televisão. Segundo informações divulgadas por sua família e representantes, ele enfrentou discretamente a doença de Alzheimer e a demência com corpos de Lewy. Deixa a esposa, Sunny Ozell, com quem se casou em 2013, e dois filhos, Sophie e Daniel, de seu primeiro casamento.

Dono de uma voz marcante e de uma presença cênica que transitava com naturalidade entre a autoridade e a sensibilidade, Stewart construiu uma carreira de mais de seis décadas. Embora tenha conquistado fama mundial com personagens da ficção científica e dos super-heróis, sua formação artística estava profundamente ligada ao teatro clássico britânico.

Jean-Luc Picard, um capitão que fez história

O capitão Jean-Luc Picard
O capitão Jean-Luc Picard

É engraçado quando descobrimos um ator que não conhecíamos direito até que ele se destaque em algum filme ou série de televisão. Depois que o elenco de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração foi divulgado e assisti ao primeiro episódio, percebi que já conhecia aquele tal capitão Jean-Luc Picard.

Antes da existência do IMDb (Internet Movie Database), onde hoje conseguimos consultar a trajetória de praticamente qualquer profissional do cinema e da televisão, lembrei-me de três trabalhos distintos do ator.

O primeiro foi em Excalibur – A Espada do Poder, dirigido por John Boorman, em 1981, no qual interpretava Lorde Leondegrance. Depois, apareceu como Gurney Halleck na primeira versão de Duna, dirigida por David Lynch em 1984. Finalmente, estava em Força Sinistra, adaptação do livro Vampiros do Espaço, de Colin Wilson, que o diretor americano Tobe Hooper transformou em um filme cult.

Em todos eles, estava presente a importante contribuição do talento de Patrick Stewart.

A trajetória de Stewart mudou radicalmente em 1987, quando foi escolhido para interpretar o capitão Jean-Luc Picard em Jornada nas Estrelas: A Nova Geração. A série apresentava uma nova tripulação a bordo da USS Enterprise-D, décadas depois das aventuras de James T. Kirk e sua equipe na produção original criada por Gene Roddenberry.

A escolha de Stewart, um ator britânico reconhecido por seu trabalho no teatro e por algumas produções para o cinema, levantou certa discussão entre os fãs da Série Clássica. Tudo isso mudou quando o ator mostrou o que poderia fazer com Jean-Luc Picard. Com uma interpretação forte e segura, o personagem tornou-se um dos mais respeitados de Jornada nas Estrelas.

Durante as sete temporadas de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração (1987–1994), Stewart estabeleceu o centro moral da série. Inteligente e diplomático, Picard ficou conhecido por suas negociações com outras civilizações e pela disposição de buscar soluções pacíficas para conflitos. Seu capitão não era um aventureiro impulsivo, mas um comandante que valorizava o conhecimento, a reflexão e a responsabilidade diante de decisões difíceis.

Encontro de Capitães - Picard e Kirk no filme Jornada nas Estrelas Generations
Encontro de Capitães – Picard e Kirk no filme Jornada nas Estrelas Generations

Antes mesmo do encerramento da sétima temporada, a Paramount Pictures já tinha planos de levar a tripulação da USS Enterprise-D para o cinema. Patrick Stewart voltou a interpretar o capitão Picard nos filmes Jornada nas Estrelas: Generations (1994), Primeiro Contato (1996), Insurreição (1998) e Nemesis (2002).

Já na era do streaming, Sir Patrick Stewart assumiu novamente o papel do veterano almirante da Frota Estelar na série Star Trek: Picard, lançada em 2020. Para os fãs, foi a oportunidade de reencontrar um personagem memorável e acompanhar mais um capítulo de sua trajetória, daquele que ajudou a humanidade a viajar onde ninguém jamais esteve.

Professor Xavier e a chegada a uma nova geração

Em 1998, a Marvel começava a colher os resultados de uma aposta importante no cinema com Blade – O Caçador de Vampiros, estrelado por Wesley Snipes. O sucesso da produção demonstrou o potencial comercial das adaptações de personagens dos quadrinhos e ajudou a abrir caminho para novos projetos.

O Líder dos X-Men, Professor Charles Xavier
O Líder dos X-Men, Professor Charles Xavier

Com isso em mente, a Fox chamou o diretor Bryan Singer, responsável por Os Suspeitos (1995) e O Aprendiz (1998), para assumir o comando de X-Men. Lançado em 2000, o filme representou outro momento importante na carreira de Patrick Stewart: interpretar o líder dos mutantes da Marvel, o professor Charles Xavier, conhecido como Professor X.

Para viver Magneto, um dos grandes antagonistas da franquia, Bryan Singer convidou Ian McKellen, com quem já havia trabalhado em O Aprendiz. A química entre os dois atores vinha de longa data. Eles haviam atuado juntos em 1977, na montagem da peça de Tom Stoppard, Every Good Boy Deserves Favour. Trabalhar novamente em X-Men foi, segundo os próprios atores, uma oportunidade de fortalecer uma amizade de décadas.

Stewart interpretou o Professor Xavier em diferentes produções da franquia, entre elas X-Men 2 (2003), X-Men: O Confronto Final (2006), X-Men Origens: Wolverine (2009) e X-Men: Dias de um Futuro Esquecido (2014). Também participou de Logan (2017), em uma interpretação mais vulnerável e melancólica do personagem. Sua última aparição como Xavier ocorreu em Doutor Estranho no Multiverso da Loucura (2022).

Com Ian McKellen em Esperando Godot
Com Ian McKellen em Esperando Godot

A parceria profissional com McKellen ultrapassou as telas. Os dois desenvolveram uma amizade próxima durante as filmagens e voltaram a dividir o palco em produções teatrais, incluindo Esperando Godot, de Samuel Beckett, e Terra de Ninguém, de Harold Pinter.

No mundo de William Shakespeare

Antes de ser reconhecido internacionalmente como Picard ou Professor Xavier, Patrick Hewes Stewart construiu sua reputação nos palcos britânicos. Nascido em 13 de julho de 1940, em Mirfield, Yorkshire, começou a atuar ainda jovem e chegou a trabalhar como repórter de jornal antes de decidir dedicar-se à interpretação.

Sua auto-biografia lançada em 2023
Sua auto-biografia lançada em 2023

Em seu livro de memórias, Making It So, Sir Patrick escreveu sobre seu primeiro trabalho profissional no teatro, na companhia Old Vic, associada a Vivien Leigh. Aos 21 anos, o jovem ator foi acolhido no elenco de apoio para uma turnê do grupo, que apresentava Noite de Reis, A Dama das Camélias e Grandes Cenas de Shakespeare. Aliás, o mesmo repertório apresentado quando a companhia veio ao Brasil. A relação dos dois sempre foi lembrada como muito importante para Sir Patrick.

Depois disso, ingressou na Royal Shakespeare Company, uma das mais importantes companhias teatrais do Reino Unido. Durante os anos seguintes, participou de numerosas montagens de clássicos, interpretando personagens como Oberon, de Sonho de uma Noite de Verão; Shylock, de O Mercador de Veneza; e o protagonista de Tito Andrônico.

A carreira cinematográfica começou a ganhar força com suas participações já mencionadas em Excalibur (1981), Duna (1984) e Força Sinistra (1985). Mesmo com a agenda comprometida com a série A Nova Geração, Patrick Stewart aproveitava os intervalos para voltar aos palcos. Interpretou Próspero em A Tempestade, protagonizou montagens de Macbeth e participou de uma produção de Hamlet, em 2008, na qual viveu Cláudio ao lado de David Tennant, conhecido por interpretar o Doutor em Doctor Who. Sua atuação lhe rendeu o prêmio Laurence Olivier de melhor ator coadjuvante.

Na montagem de Um Conto de Natal de Charles Dickens em 2006
Na montagem de Um Conto de Natal de Charles Dickens em 2006

Em 1996, tive a oportunidade de assistir a Patrick Stewart em uma versão moderna de Um Conto de Natal, de Charles Dickens. Ele próprio fez a adaptação para o palco, demonstrando sua capacidade de sustentar uma apresentação inteira com a força de sua interpretação. O desempenho como Ebenezer Scrooge marcou a memória deste fã brasileiro que assistia à apresentação no West End, em Londres. Stewart reprisou o papel no telefilme Um Conto de Natal, produzido para a TNT em 1999.

Um ator que nunca se limitou à ficção científica

Stewart também demonstrou notável versatilidade na comédia. Participou de produções como L.A. Story (1991), de Steve Martin, e A Louca, Louca História de Robin Hood (1993), de Mel Brooks. Emprestou sua voz a personagens de animações como Uma Família da Pesada, Futurama e Os Simpsons, na qual interpretava o líder de uma organização secreta chamada Os Lapidários.

Em 1994, foi convidado para apresentar o programa Saturday Night Live, no qual participou de uma paródia que misturava Jornada nas Estrelas e O Barco do Amor.

Patrick Stewart com o colega da série Blunt Talk, Adrian Scarborough
Patrick Stewart com o colega da série Blunt Talk, Adrian Scarborough

Em 2015, protagonizou a série Blunt Talk, na qual interpretou um apresentador britânico de televisão que se muda para Los Angeles para comandar um programa de entrevistas. No suspense de terror Sala Verde (2015), surpreendeu ao viver um líder neonazista, em um papel bastante distante dos heróis ponderados que marcaram sua imagem pública.

Consultando o IMDb, é possível encontrar outras participações interessantes de Stewart em produções como O Trem da Morte, ao lado de Pierce Brosnan (1993); Jeffrey – De Caso com a Vida (1995), no qual interpretou um personagem homossexual; e Teoria da Conspiração (1997), ao lado de Mel Gibson e Julia Roberts.

Na televisão, interpretou o professor Ian Hood na série britânica The Eleventh Hour (2006), além de uma participação mais do que especial na animação de Seth MacFarlane, American Dad!, na qual emprestou sua voz ao diretor Avery Bullock.

Um homem dedicado

Sir Patrick Stewart também se destacou pela defesa dos direitos humanos, apoiando sobreviventes de violência doméstica, refugiados de países em conflito e iniciativas voltadas aos veteranos. Por sua carreira artística e seu ativismo social, recebeu o título de cavaleiro da Ordem do Império Britânico em 2010.

Patrick Stewart em na série Star Trek Picard
Patrick Stewart em na série Star Trek Picard

Sua carreira demonstrou que o reconhecimento popular e a formação clássica não precisam caminhar em direções opostas. Stewart levou a densidade do teatro shakespeariano para a ponte da Enterprise e para a escola de mutantes do Professor Xavier. Deu humanidade a personagens que ultrapassaram os limites de suas respectivas franquias e conquistaram um lugar especial na memória do público.

Sua voz de comando na ponte da USS Enterprise-D continuará ecoando através das gerações de fãs que o descobriram em uma nova Jornada nas Estrelas. Jean-Luc Picard será lembrado como um capitão que compreendia a liderança como uma responsabilidade. Ao mesmo tempo, Stewart permanecerá na memória de jovens mutantes que encontraram no Professor Xavier um mentor que sempre acreditou na convivência entre aqueles que se julgavam diferentes.

A última fronteira de Patrick Stewart chegou ao fim, mas os mundos que ele ajudou a construir continuarão abertos à imaginação de todas as futuras gerações.

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *