Quando a Netflix chegou ao Brasil, uma de suas frases promocionais era “o canal mundial de TV”. Na época, a definição parecia pretensiosa. O crescimento do streaming, porém, acabou dando outro significado à expressão. Séries e filmes produzidos na Coreia do Sul, Turquia, África do Sul, Espanha, Brasil e dezenas de outros países passaram a circular simultaneamente por diferentes mercados. Agora, com o Emmy negociando sua transferência para o Prime Video e outras grandes premiações seguindo o mesmo caminho, até eventos que nasceram dentro da televisão nacional começam a assumir uma dimensão verdadeiramente global.
O sistema de rodízio entre as redes de TV americanas, que durante 31 anos levou o Emmy alternadamente para ABC, CBS, Fox e NBC, pode estar chegando ao fim. A Television Academy está em negociações avançadas para transferir a transmissão anual da premiação para o Amazon Prime Video, o que faria do Emmy o mais recente grande evento televisivo a migrar da TV linear para o streaming.
A cerimônia deste ano, exibida pela NBC e pelo Peacock, encerrou o atual contrato de oito anos firmado em 2018. Pelo acordo, as quatro grandes redes americanas pagavam pouco mais de US$ 8 milhões por ano pelos direitos. Ainda não estão definidos os valores ou os demais termos de um eventual contrato com a Amazon. No Brasil, a cerimônia foi transmitida pelo canal por assinatura TNT e, no streaming, pela HBO Max.
A mudança acompanha um movimento que já atingiu outras importantes premiações. O Academy of Country Music Awards (ACM) passou ao Prime Video depois de deixar a CBS em 2021. O SAG Awards, anteriormente transmitido por TNT e TBS, foi para a Netflix. E o Oscar, em uma mudança ainda mais significativa, terá transmissão global pelo YouTube a partir de 2029, depois de décadas na ABC.
Para a Television Academy, uma das vantagens de entregar o Emmy a uma única plataforma por vários anos seria criar um compromisso maior com a divulgação e a produção da cerimônia. No atual sistema de rodízio, uma emissora transmite o evento durante um ano e, mesmo que consiga bons resultados, no ano seguinte o programa passa para uma concorrente.
Antes de avançar nas negociações com a Amazon, a Academy analisou outras possibilidades. Uma delas era manter o rodízio, mas com novas emissoras e possivelmente sem a Fox. Também foi estudada a transmissão simultânea pelas quatro redes, mas a complexidade de dividir publicidade e audiência entre diferentes emissoras e plataformas acabou dificultando a proposta.
A Television Academy, entretanto, tem motivos históricos para avaliar cuidadosamente uma mudança tão grande. Em 1987, a Fox conseguiu os direitos exclusivos do Emmy ao superar as ofertas das três grandes redes da época. A audiência caiu significativamente. Em 1995, o sistema de rodízio entre as quatro grandes emissoras foi retomado.
Outro episódio ocorreu em 2002, quando a HBO ofereceu US$ 50 milhões por cinco anos pelos direitos do Emmy. Apesar da vantagem financeira para a Academy, as redes abertas ameaçaram boicotar a cerimônia caso o acordo fosse fechado.
A questão agora é diferente. O Emmy continua sendo um evento relevante de televisão ao vivo, mas sua audiência está muito abaixo dos níveis históricos. A última vez que a cerimônia ultrapassou 10 milhões de espectadores foi em 2018. A edição de 2025 registrou 7,59 milhões de espectadores, e a deste ano ficou em 6,7 milhões.
A própria Academy também vem procurando reduzir a duração da transmissão. Cinco categorias foram transferidas para cerimônias anteriores à principal, abrindo espaço para outros segmentos do programa, que precisa acomodar cerca de 25 entregas de troféus durante a noite.
Se o acordo com a Amazon for confirmado, o Emmy entrará definitivamente em uma nova fase: as grandes premiações americanas deixam de depender exclusivamente da televisão aberta e passam a fazer parte do modelo global das plataformas de streaming.





