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Novidade na Darkflix: As Crônicas Marcianas

As Crônicas Marcianas na Darkflix

Deixe-me contar um pouco da história sobre a chegada do VHS no Brasil. No começo dos anos 80, os primeiros aparelhos de vídeo doméstico começaram a chegar no país, criando uma pequena, mas importante rede de videoclubes. Ali nascia o mercado de vídeo brasileiro, incipiente e promissor. Para entrar nesses videoclubes, era necessário doar alguma fita VHS com algum conteúdo para ser usado como acervo do próprio lugar.
Foi num desses videoclubes, o da Audio em São Paulo, onde conheci As Crônicas Marcianas. Tudo graças ao amigo e jornalista Rubens Ewald Filho que escrevia uma coluna semanal no extinto Jornal da Tarde, sobre os filmes que estavam circulando nesses clubes de filmes. Além de fitas gravas da TV, era comum começar a encontrar filmes originais americanos trazidos por algum turista fascinado com a novidade tecnologia. Sim, era o começo do cinema em casa.
Li na coluna do REF, que o vídeo clube da Audio, uma das grandes lojas de disco e equipamentos eletrônicos da cidade, tinha recebido gravações originais de As Crônicas Marcianas, Holocausto e do episódio final da série MASH, que foi uma das maiores audiências da tv americana em 1983. O episódio Goodbye, Farewell and Amen teve mais de 105 milhões de telespectadores, tornando-se o episódio final de série mais assistido da história da TV mundial.
Fui até lá e levei MASH e As Crônicas Marcianas. Confesso que pelo pouco inglês que tinha na época, assistir todo aquele material foi intenso. Como já tinha lido do texto de Ray Bradbury, não foi difícil entender. Já MASH, tive que voltar várias vezes quando a intensidade do roteiro não dava manobra para entender.
Passaram-se vários anos, até que a minissérie aportasse no Brasil. O problema é que a VIC Video, uma pequena distribuidora de filmes em VHS, por total desconhecimento do que se tratava (e isso era muito comum no mercado de vídeo), não usou o título original do livro de Bradbury, optando por rebatizar a minissérie como Planeta Vermelho. Mas tem uma pegadinha nessa história; como era economicamente inviável lançar os três episódios em três fitas separadas, a VIC optou por editar a minissérie para caber num VHS de 180 minutos de duração. Se era complicado assistir sem legenda, imagine sem várias partes da edição que foi feita.
Agora, com o lançamento da minissérie pela Darkflix, é o momento certo de rever essa superprodução da rede NBC, estrelada por Rock Hudson, escrito por Richard Matheson (O Incrível Homem que encolheu\1957) e dirigido por Michael Anderson, responsável por filmes como A Volta ao Mundo em 80 Dias (1956) e Fuga no Século 23 (1976).

Rocky Hudson em As Crônicas Marcianas
Rocky Hudson em As Crônicas Marcianas

Um romance difícil de adaptar
O grande problema na adaptação de As Crônicas Marcianas é que Bradbury não escreveu um livro, mas uma série de contos entre 1946 e 1950, que posteriormente foram agrupados no livro que se tornou um clássico da ficção-científica. Matheson montou a minissérie usando como referência a cronologia do livro colocando essa estrutura acompanhando diferentes momentos da relação entre a humanidade e Marte.
A principal diferença entre livro e adaptação está justamente na estrutura da história. Enquanto Bradbury constrói sua história como uma sucessão de contos que podem ser lidos quase de forma independente, a minissérie procura estabelecer uma linha dramática contínua. Diversos episódios do livro são condensados ou reorganizados em torno do coronel John Wilder, personagem que assume o papel de elo entre as diferentes fases da colonização de Marte.
Essa escolha oferece maior unidade dramática, mas altera profundamente a experiência proposta pelo autor. No livro, cada conto funciona como uma reflexão isolada sobre um aspecto da natureza humana. Na televisão, essas reflexões tornam-se capítulos de uma única aventura espacial.
Outra diferença importante aparece no tratamento dos marcianos. Nas páginas de Bradbury, eles são descritos como seres elegantes, telepáticos e quase etéreos, representantes de uma civilização antiga cuja sofisticação contrasta com a impulsividade dos visitantes terrestres. Sua presença transmite uma atmosfera quase mística, reforçando o caráter poético da narrativa.
O elenco da produção trazia, além de Hudson, nomes importantes do cinema e da televisão como Roddy McDowall (Planeta dos Macacos), Darren McGavin (Kolchak e os Demônios da Noite), Bernadette Peters, Barry Morse (Espaço 1999), Maria Schel (Super-Homem – O Filme) e Fritz Waver (Limite de Segurança), Bernie Casey ( O Homem que caiu na Terra), e Nicholas Hammond (Homem-Aranha – a série).

Rocky Hudson e Darren McGavin chegando em Marte
Rocky Hudson e Darren McGavin chegando em Marte

O tom e a produção
Na minissérie, limitações orçamentárias e técnicas levaram a uma representação muito mais simples. Os marcianos aparecem praticamente como seres humanos usando figurinos exóticos e maquiagem discreta. Embora essa opção preserve a ideia de uma raça inteligente e pacífica, ela reduz parte do impacto visual imaginado pelo escritor.
Também há diferenças de tom. O livro é profundamente lírico. Bradbury utiliza Marte como metáfora para discutir temas universais, recorrendo a descrições sensoriais e passagens contemplativas que muitas vezes se aproximam da poesia. A leitura provoca uma sensação constante de nostalgia, como se o planeta vermelho fosse um espelho da própria humanidade. Na televisão, esse lirismo cede espaço algo mais convencional. O roteiro de Richard Matheson procura preservar os diálogos filosóficos sempre que possível, mas a necessidade de manter uma progressão dramática faz com que muitos momentos contemplativos sejam reduzidos ou eliminados.
Ainda assim, a essência da crítica social permanece praticamente intacta. Tanto no livro quanto na minissérie, Bradbury denuncia o comportamento colonialista da humanidade. Os exploradores chegam a Marte acreditando levar progresso, mas acabam reproduzindo violência, preconceito, destruição ambiental e intolerância cultural. A colonização do planeta transforma-se em uma alegoria da expansão europeia sobre outros continentes e da incapacidade humana de aprender com os próprios erros históricos.
Visualmente, a produção também revela seu tempo. Filmada em Malta, utiliza paisagens áridas para representar Marte e aposta em cenários grandiosos para os padrões televisivos do início dos anos 1980. Os efeitos especiais, entretanto, mostram hoje as limitações tecnológicas da época. Curiosamente, essa simplicidade acabou contribuindo para que a atenção permanecesse concentrada nos diálogos e nas ideias, em vez do espetáculo visual.
Talvez a maior diferença entre as duas versões esteja justamente na forma como cada uma encara a ficção científica. Bradbury nunca escreveu um romance preocupado com precisão científica. Seu Marte é simbólico, quase um cenário de fantasia, onde o planeta serve como palco para discutir a essência do ser humano. A minissérie, embora respeite essa proposta, aproxima a narrativa do modelo clássico das aventuras espaciais produzidas para a televisão, tornando alguns conflitos mais concretos e reduzindo parte da ambiguidade presente na literatura.
Outro bom exemplo da obra de Ray Bradbury é O Homem Ilustrado, publicado em 1951. A série de situações imaginadas na conversa entre dois andarilhos, é a reunião de crônicas com uma linha de condução. O livro foi adaptado para o cinema em 1969, com o título brasileiro de Uma Sombra passou por aqui, estrelado por Rod Steiger, o homem ilustrado (tatuado) da história.

Marte na A história da TV
Marte na A história da TV

Um momento da história da TV
Mesmo assim, As Crônicas Marcianas permanece como uma das adaptações televisivas mais respeitosas da obra de Ray Bradbury. Ainda que simplifique personagens, reorganize acontecimentos e suavize o lirismo característico do escritor, a produção preserva a mensagem central do livro: a verdadeira ameaça nunca esteve em Marte, mas na própria humanidade. Ao mostrar que os homens levam consigo suas virtudes e, sobretudo, seus defeitos para qualquer mundo que conquistem, tanto o romance quanto a minissérie permanecem atuais ao discutir colonialismo, intolerância, destruição cultural e os riscos da autodestruição.
Quase meio século após sua produção, a minissérie pode parecer datada em seus efeitos visuais, mas continua sendo um exemplo raro de uma adaptação que compreendeu que a força da obra de Bradbury não estava nas naves espaciais ou nos alienígenas, e sim nas perguntas que ela faz sobre quem somos quando nos deparamos com um novo mundo e, principalmente, se somos realmente capazes de construir um futuro diferente daquele que deixamos para trás.

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