Enquanto o Hulu cancela Deli Boys após duas temporadas, a HBO Max renova Stuart Não Consegue Salvar o Universo antes mesmo do encerramento de sua primeira temporada.
Durante muitos anos, renovação e cancelamento de séries de televisão obedeciam a um calendário relativamente previsível, principalmente nas redes de TV dos Estados Unidos. Era preciso esperar o desempenho de uma temporada, analisar audiência, custos de produção e repercussão para, só então, os estúdios e emissoras decidirem o que continuaria no ar. A televisão por streaming mudou radicalmente esse processo.
Quem fica e quem sai

Agora, quando uma plataforma identifica rapidamente que uma produção está funcionando, a renovação pode acontecer antes mesmo que a temporada termine — e o contrário também pode ocorrer. Hoje, os destinos de Deli Boys, feita para o Hulu e disponível no Disney+, e Stuart Não Consegue Salvar o Universo ilustram bem essa nova realidade.
A Hulu cancelou Deli Boys após duas temporadas, apesar da boa recepção da crítica, pela baixa audiência. Criada por Abdullah Saeed, Deli Boys acompanhava os irmãos paquistaneses-americanos Mir e Raj Dar, interpretados por Asif Ali e Saagar Shaikh. Depois da morte do pai, os dois descobrem que o homem aparentemente respeitável mantinha uma vida secreta ligada ao crime organizado e acabam envolvidos no submundo que ele deixou para trás. Poorna Jagannathan interpretava Naveeda “Lucky”, confidente do patriarca e uma poderosa figura do crime.
O cancelamento mostra, entretanto, uma das contradições da atual televisão por streaming: uma série pode ser elogiada, ter identidade própria, representatividade e um elenco reforçado e, ainda assim, não encontrar público suficiente para sobreviver.
O caso de Stuart Não Consegue Salvar o Universo, da HBO Max, também reflete uma tendência cada vez mais evidente: renovar rapidamente uma série que demonstra ter um público cativo. A produção acaba de ser renovada pela HBO Max para uma segunda temporada quando apenas quatro episódios da primeira haviam sido exibidos. Lançada semanalmente às quintas-feiras, a série tornou-se, segundo a própria plataforma, o segundo maior lançamento de comédia da história da HBO Max em escala global.
Criada por Chuck Lorre, Zak Penn e Bill Prady, a produção é um derivado da premiada comédia de 12 temporadas Big Bang – A Teoria, que conseguiu transformar um de seus personagens secundários em protagonista. Kevin Sussman volta como Stuart Bloom, proprietário da loja de quadrinhos, que acidentalmente provoca um desastre no multiverso ao quebrar um dispositivo criado por Sheldon e Leonard.
A partir daí, Stuart precisa restaurar a realidade com a ajuda de Denise (Lauren Lapkus), Bert (Brian Posehn) e Barry Kripke (John Ross Bowie). A série combina ficção científica, comédia e universos alternativos, permitindo ainda o retorno de personagens e elementos conhecidos de The Big Bang Theory.
Um destino insólito

Os dois casos ajudam a entender como o conceito de “temporada de sucesso” está mudando. Não é mais necessariamente preciso esperar pelo último episódio para decidir o futuro de uma série. Plataformas acompanham continuamente audiência, retenção, alcance e comportamento dos assinantes e podem agir muito antes do encerramento de uma temporada.
E isso também explica por que o streaming pode ser particularmente cruel com produções como Deli Boys. A qualidade deixou de ser suficiente. Uma série pode conquistar críticos, apresentar personagens diferentes e ocupar um espaço importante em termos de representação, mas precisa demonstrar que consegue transformar essa repercussão em audiência.
No caso de Stuart Não Consegue Salvar o Universo, a equação foi outra: uma franquia conhecida, personagens já estabelecidos e uma resposta rápida do público produziram uma decisão igualmente rápida da plataforma. Isso nos leva a uma discussão que também existe nas redes sociais: o que deveria determinar a relevância de um conteúdo — sua qualidade e o impacto que produz ou, simplesmente, o número de visualizações?
É uma mudança importante em relação à televisão de algumas décadas atrás. Se antigamente produtores e espectadores precisavam esperar meses para descobrir se uma série continuaria, o streaming transformou renovação e cancelamento em decisões cada vez mais próximas do comportamento imediato do público.
E, nesse novo cenário, uma coisa parece certa: o destino de uma série pode estar sendo decidido muito antes de o espectador chegar ao último episódio.





