Os Sentimentos Reais em The Madison

A nova série criada por Taylor Sheridan revela que o autor do faroeste moderno Yellowstone, Tulsa King e Operação Lioness é um apaixonado pela vida.

publicado por Paulo Gustavo em 24/03/2026 18:15:00

Confesso que esperava ver algo estilo Dallas, a série dos anos 70 que revelou os bastidores dos poderosos homens do petróleo do Texas, através da Família Ewing, quando comecei a assistir o primeiro episódio de The Madison. A nova série veio com uma sinopse divulgada pelo press release do canal streaming, informando que a personagem de Michelle Pfeiffer, Stacy Clyburn, sofre uma grande perda que a obriga a ir até o interior do estado de Montana para reconstruir sua vida.



Ou seja, um drama sobre perda, sobre família, sobre um lugar onde nenhum dos personagens parece ter alguma conexão. Afinal, a família Clyburn faz parte da elite da sociedade de Nova York e conviver com algo tão distante como a zona rural de Montana nunca esteve nos planos deles. Mesmo quando o patriarca da família, Preston, feito pelo fantástico Kurt Russell, insistia que todos deveriam conhecer o lugar onde ele e o irmão Paulo (Matthew Fox, de Lost) passavam as férias pescando e se conectando com a natureza.

Ninguém movia uma palha para viajar para um lugar tão distante como Montana.

Quis o destino que tudo isso mudasse radicalmente, quando Stacy recebe a notícia que um acidente de avião, levou sua paixão de quarenta anos. A tragédia a levou para esse pequeno lugar à beira do Rio Madison, onde Preston e Paul construíram suas casas para curtir a pescaria anual. A dor da perda fica ainda mais intensa quando ela descobre que Preston escrevia um diário de suas férias com o irmão. Naquele momento, ela percebe que nesses 40 anos de casado, havia um lado de Preston que ela não conhecia. E agora, por forças das circunstâncias, ela quer descobrir.

Enquanto terminei de assistir o primeiro episódio da temporada (que tem apenas seis), fui ver os créditos iniciais para descobrir que escreveu aquele sensível e intenso episódio. Minha experiência de ter visto centenas de séries pessoal e profissionalmente, sabe que o primeiro episódio, considerado o piloto da série, sempre é mais criativo na apresentação da história, dos personagens, da trama em geral. O responsável por aquele momento de emoção pura era, para minha surpresa, Taylor Sheridan!


A Qualquer Custo (2016)


O motivo é simples: Taylor reinventou o faroeste moderno escrevendo os roteiros dos filmes Sicário – Terra de Ninguém (2015) e A Qualquer Custo (2016), que lhe deu uma indicação ao Oscar de Roteiro Original. Usou esse talento para construir outro sucesso da telinha, Yellowstone (2018), fechando um milionário acordo com a Paramount onde fez outras grandes séries como os spin-offs de Yellowstone, 1883 (2021) e 1923 (2022), as séries Operação Lioness (2023), O Dono de Kingstown (2021), Tulsa King (2022), Landman (2024) e o recente Marshals – Uma História de Yellowstone.

Todas essas séries estão ligadas ao lado violento do oeste moderno criado por Sheridan. Mesmo Yellowstone, que fala sobre a batalha de John Dutton (Kevin Costner) para preservar a terra em Montana onde sua família chegou no século 19 para se estabelecer como criadores de gado, tem suas intrigas, conspirações e tiros. Na minha cabeça, como Taylor Sheridan, que convenceu Sylvester Stallone a estrelar uma série de TV como Tulsa King, faz um texto sublime como o da série The Madison?

Numa análise mais geral sobre a obra de Sheridan, é possível notar alguns sutilezas que passam despercebidas em função do contexto geral. Em Sicário, o personagem de Benício Del Toro é um assassino profissional, contratado pela CIA, para eliminar um dos líderes dos carteis de drogas do México. Só que ele esconde um detalhe importante que fará sentido no final do filme: ele é pai.

A dupla de irmãos Toby e Tanner Howard, feitos por Chris Pine e Ben Foster, decidem roubar um banco para conseguir dinheiro para pagar as dívidas da fazenda da família. O lugar é onde os dois cresceram.


Operação Lioness (2023)


Taylor Sheridan é um homem de família. Quando escreve, ele não apenas coloca personagens enfrentando inimigos numa chuva de balas. Ele coloca seus personagens imaginando que, se não tomarem uma atitude radical, quem irá sofrer serão filhos, filhas, esposas, pais e mães. Veja o que acontece com a personagem de Zoe Saldaña, em Operação Lioness, quando sabe que suas ações poderão impactar diretamente sua vida pessoal.

Quando você assiste The Madison, você não está apenas vendo uma família passando pela dor da perda. Vê como essa perda irá afetar as relações entre todos, se não tomarem medidas radicais para mudarem suas próprias vidas naquele momento. O contraste é grande entre a vida da cidade grande com os habitantes de um lugar aparentemente longe da “civilização”. Taylor cria um antagonismo emocional apropriado para cada cena.


Michelle Pfeiffer e Kurt Russell: o casal Stacy e Preston.


As lembranças guardadas no diário de Preston, servem para mostrar para Stacy que, mesmo ela não tendo a chance de conhecer esse lugar que o marido construiu para sua família, ela acredita que ainda tem chance de enxergar a beleza do lugar como o marido ricamente faz no diário.

Aliás, existem dois personagens que ajudam o espectador a entender os dilemas vividos pelos personagens: a fotografia feita por Christina Alexandra Voros, e a trilha sonora composta por Breton Vivian. Veja se a cena onde Stacy visualiza o local onde Preston narra como um vale dourado similar ao tom dos cabelos da esposa. A música não contrasta com a cena, que tem um brilho muito simples e direto. Ao mesmo tempo, não é uma cena piegas e colocada naquele momento para ajudar as pessoas a ficarem compadecidas com a dor de Stacy. Esses dois elementos estão lá para nos deixar sentir os sentimentos mais profundos dos personagens, sem cair numa emoção simplória. Isso é roteiro.


Russell (Patrick J. Adams) e a esposa Paige (Elle Chapman), a filha mais velha Abigail (Beau Garrett) e sua filhas e netas de Stacy, Macy (Alaina Pollack) e Bridget (Amiah Miller)


E se você pensa que a intensidade dramática da série é resultado da produção se limitar em contar essa história em apenas seis episódios, é porque você ainda não entendeu como essa dor se transforma na energia necessária para que Stacy, suas filhas Abigail (Beau Garrett) e Paige (Elle Chapman), seu genro Russell (Patrick J. Adams) e as netas Bridget (Amiah Miller) e Macy (Alaina Pollack), também entendam que suas vidas não serão mais as mesmas.

The Madison é um dos melhores dramas da televisão por contar uma simples história de amor através da dor. Ela não tem o visual vitoriano de Downton Abbey (2010), ou o cinismo pragmático de MadMen – Inventando Verdades (2007), duas séries de época, sem violência, drogas ou sexo sem sentido. A história dessa família pega de surpresa por uma tragédia pessoal supera dramas existenciais ou psicológicos, muito típicos de séries de suspense e drama policiais.

É uma história sobre pessoas que tem que encarar uma realidade onde a dor, algumas vezes insuportável, está presente e não pode ser esquecida facilmente. Uma dor, não apenas da perda de um ente querido, mas também, a dor de descobrir que não se pode recuperar o tempo perdido. O tempo é como as águas de um rio, sempre em movimento ao infinito.

Assista e mergulhe em The Madison, no Paramount+. Não esqueça de deixar uma caixa de lenços de papel estrategicamente colocada perto do controle remoto.

 

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