In Memoriam - Robert Duvall (1931–2026)
O ator que atravessou o cinema americano com rigor, silêncio e verdade
O primeiro passo de Robert Duvall no cinema foi dado em um clássico absoluto. Em O Sol é Para Todos (1962), ele interpretava Boo Radley, um jovem com deficiência mental cuja presença silenciosa se revela peça fundamental da trama liderada por Gregory Peck, vencedor do Oscar por seu trabalho como o advogado Atticus Finch. Mesmo com pouco tempo em cena, Duvall já demonstrava algo que marcaria toda a sua carreira: intensidade sem excessos.

O sol é para todos
Dois anos depois, ele integrava o elenco de Caçada Humana
(1966), ao lado de Jane Fonda, Robert Redford e Marlon Brando, no cultuado
filme de Arthur Penn. Era o início de uma trajetória que o colocaria, pouco a
pouco, entre os grandes intérpretes do cinema americano.
Antes de alcançar projeção mundial com O Poderoso Chefão
(1972), Duvall já havia participado de verdadeiras preciosidades. Esteve em No
Assombroso Mundo da Lua (1967), dirigido por Robert Altman, cineasta que
voltaria a escalá-lo como o inesquecível Major Frank Burns em M.A.S.H. (1970).
Em 1968, fez o motorista de táxi que auxilia o tenente em Bullitt, clássico
policial estrelado por Steve McQueen. No ano seguinte, contracenou com John
Wayne no faroeste Bravura Indômita.
Sua consagração veio com O Poderoso Chefão, onde interpretou
Tom Hagen, papel que lhe rendeu sua primeira indicação ao Oscar de Ator
Coadjuvante. Outras indicações viriam por Apocalypse Now (1979), A Qualquer
Preço (1999) e O Juiz (2014). Como ator principal, foi indicado por O Dom da
Fúria (1981) e O Apóstolo (1998), vencendo a estatueta por A Força do Carinho (1983),
no qual viveu um cantor de música country lutando contra o alcoolismo — uma
atuação seca, humana e devastadora.

O Poderoso Chefão
Ao longo das décadas, Duvall construiu uma filmografia
impressionante, passando por títulos como THX 1138 (1971), Rede de Intrigas
(1976), E a Águia Pousou (1976), Um Homem Fora de Série (1984), Colors – As
Cores da Violência (1988), Um Dia de Fúria (1993), O Jornal (1994), Fenômeno
(1996), Impacto Profundo (1998), Pacto de Justiça (2003), Coração Louco (2009)
e O Pálido Olho Azul (2022). Era um ator que nunca buscava o centro da cena —
mas, invariavelmente, acabava dominando-a.
Como todo grande ator de sua geração, Duvall começou no
teatro e na televisão. O amor pela interpretação surgiu ainda nos anos 1950,
quando servia o Exército em Fort Gordon e participou de uma montagem amadora.
Mais tarde, estudou na Neighborhood Playhouse, em Nova York, onde dividiu
moradia com Dustin Hoffman, Gene Hackman e James Caan — todos ainda
desconhecidos.
Seu primeiro trabalho profissional foi na antologia
dramática The Robert Herridge Theater (1960), da CBS. A partir daí, tornou-se
presença constante em séries marcantes dos anos 1960, como Os Intocáveis, Rota
66, O Fugitivo, O Túnel do Tempo, Combate, Viagem ao Fundo do Mar, entre muitas
outras. Na televisão, ajudou a estabelecer novos parâmetros de qualidade para
as minisséries, destacando-se em Os Pistoleiros do Oeste (1989), Stalin (1993)
— que lhe rendeu um Globo de Ouro — e Rastro Perdido (2006), faroeste premiado
com vários Emmy Awards.
Quinta Dimensão
Particularmente, tive a oportunidade de conversar com Duvall sobre sua participação em Quinta Dimensão (The Outer Limits). No episódio Camaleão (1963), ele interpretava um agente do governo que se submetia a uma cirurgia para se transformar em um alienígena e investigar uma invasão silenciosa. Segundo o ator, atuar na série era simples; o desafio estava nas mais de duas horas diárias de maquiagem, que ele descrevia como entediantes. Duvall retornaria ao programa no episódio duplo Os Herdeiros.
Entre tantas falas memoráveis, uma frase de Apocalypse Now
permanece como símbolo de sua força cênica. No papel do Tenente-Coronel
Kilgore, ele eternizou um dos monólogos mais célebres do cinema:
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Apocalipse Now
“Adoro o cheiro de napalm pela manhã. Sabe, uma vez
bombardeamos uma colina por 12 horas. Quando tudo acabou, subi lá. Não
encontramos nenhum deles, nenhum maldito corpo queimado. O cheiro… cheirava a
vitória. Um dia esta guerra vai acabar.”
Robert Duvall faleceu na noite de domingo, aos 95 anos, em
sua casa no interior do estado da Virgínia. A informação foi divulgada por sua
esposa. Ele deixa uma carreira monumental, marcada pela coerência artística,
pela recusa ao estrelismo fácil e por uma entrega absoluta à verdade dos
personagens. Um ator que não precisava gritar para ser ouvido — bastava estar
em cena.
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